“O bom whisky você conhece no dia seguinte”. “Brastemp não tem comparação”. “Nossos japoneses são mais criativos que os japoneses dos outros”. “Feito pra você”. “1001 utilidades”. São slogans clássicos de marcas conhecidas, registros de uma época em que a publicidade era a grande usina de “memes” (um tanto analógicos) da cultura popular. Lembrei do poder do slogan quando vi um novo filme da Marvel, com o mago Dr. Estranho, “O multiverso da loucura”. Mais que um nome, é quase um slogan. E achei curioso pensar em multiverso justamente quando o “hot topic” da hora é o metaverso.

Voltando aos slogans, eles eram muitas vezes o retrato de posicionamentos de marca e davam lastro, base para toda a estratégia de comunicação, além de refletir valores e objetivos. Durante décadas, o bom slogan era uma instituição. Ele dava sentido e credibilidade para as marcas e produtos.

Aos poucos, os slogans e a concepção tradicional de publicidade foram se modificando. Hoje, slogans são praticamente irrelevantes, retóricos ou redundantes. A comunicação nesses tempos digitais ganhou outra dinâmica, a capacidade de dialogar e gerar conteúdo para redes sociais, vídeos e plataformas, buscar influenciadores e obter conversão fez da propaganda tradicional, baseada em campanhas de mídia de massa um anacronismo ou uma extravagância.

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Ao mesmo tempo, a noção de “público-alvo” virou quase uma excentricidade. Como falar em público-alvo quando uma geração Z se caracteriza pela fluidez, renega tradições, marcas e convenções? E quando falamos em fluidez, podemos verificar como essa noção define exemplarmente nossos tempos de imersão digital. A fluidez é de gênero, com as variantes de língua e expressão que identificam “neutralidade” (o hilariante e esquisito “amigues” é um exemplo), é de trabalho (agora híbrido), é de pagamentos (com o Pix), de padrões monetários (com a ascensão das criptomoedas e dos NFTs) e até mesmo de realidades, com a corrida para o metaverso.

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Logicamente, o metaverso procura transportar as pessoas para uma outra realidade, fazendo com que os usuários destes novos condomínios virtuais possam se alienar da realidade vigente, mergulhando em novas experiências, repletas de estímulos visuais, auditivas e táteis, um combo de sensações que as transporta para outros campos cognitivos.

E a partir disso, muitas inovações vão surgir, tendo como objetivo engajar pessoas a utilizarem sem tempo em cenários especialmente criados para despertar emoções, interações e vendas. O metaverso é o ambiente idealizado para fazer da experiência do cliente o momento máximo de interação entre marcas e pessoas. Definitivamente será possível fazer um cliente literalmente mergulhar no conceito de uma marca. Ao mesmo tempo, as marcas e empresas deverão ter sensibilidade para se amoldar às diferentes identidades que um cliente irá assumir em suas experiências no metaverso. “Se hoje eu sou estrela, amanhã já se apagou”, exclamou o saudoso Raul Seixas em uma música-tema dos nossos tempos de fluidez: “Metamorfose ambulante”, que ele preferia ser a ter uma velha opinião formada sobre tudo.

E então nós chegamos a Marvel, com a sua ideia particular de “metaverso”, denominada “multiverso”. Diversos universos, incontáveis, nos quais múltiplas versões de nós mesmos existem, em mundos paralelos, que se desdobram em infinitas possibilidades. Ao abordar o “multiverso da loucura” (não vi o filme, logo não há spoilers adiante), a Marvel quer justamente abrir janelas de interpretação, retorno, experimentação e ambiguidades em torno de seus personagens, para que possa dialogar com os jovens que se sentem à vontade mudando de identidade, a todo momento. Logo, o multiverso da loucura é uma forma de extrapolar o que a realidade já mostra e, também, de se conectar com a ideia geral de metaverso. Um ambiente onde podemos exercitar diferentes versões de nós mesmos, até talvez encontrarmos aquela que mais nos agrada ou mais nos deixa satisfeitos.

O desafio para as empresas aqui não é simplesmente trocar de slogans a cada momento. É de criar um formato de interação e atuação que as tornem adaptáveis a clientes fluidos. A empresa fluida é radial e simultânea, tem de se desapegar do velho formato no qual as tarefas são feitas em sequência até levar alguma oferta para o cliente. A empresa ideal para um mundo onde multiverso e metaverso cativam as pessoas que se ressignificam a todo instante é ela também uma “metamorfose ambulante”. Mas como ser assim sem perder a essência e manter a própria integridade?

O cerne dessa habilidade está justamente na experiência do cliente. Orientar a empresa com foco no cliente, procurando criar, permanentemente, novos formatos de experiência que se adaptem a clientes mutantes é a estratégia ideal para que ela encontre a melhor versão de si mesma. Essa habilidade vai exigir times e lideranças mais versáteis, mais flexíveis e empáticos. Desenvolver esse mindset demanda abertura para assimilar novas ideias e muita resiliência para testas novos caminhos o tempo todo.

O metaverso da experiência é um campo aberto para ser explorado, um multiverso alucinado, perigoso e inclemente para empresas sem vontade, coragem ou força para mudar. Empresas que podem se tornar tão obsoletas quanto o bom, velho e inútil slogan.

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